Nos fins dos anos 60, o prato do brasileiro passou por uma transformação. Pesquisadores do Instituto Agronômico da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo criaram o feijão carioca – o IAC-Carioca, edificando as bases da modernidade dessa lavoura alimentar fundamental e estratégica para a população. Por isso, é relevante a reflexão sobre a mudança estrutural na produção brasileira de feijão de cores – o mais consumido nacionalmente -, mostrando como a base técnica desenvolvida inicialmente pela pesquisa pública paulista, que mais tarde recebeu a contribuições de outras instituições públicas nacionais.
A criação da variedade Carioca gerou um processo de especialização regional na década de 1970 – condição essencial para a concretização de intenso progresso técnico - e ganhou contornos nacionais nos anos 1980 em diante, com o processo de estruturação da complementaridade de safras com várias regiões em distintas unidades da federação brasileira. Isto permitiu atender à preferência do consumidor por consumir feijão novo a todo o tempo.
Os resultados da pesquisa foram decisivos para incorporar o feijão no rol das culturas com dinamismo tecnológico, propiciando a modernização produtiva com incorporação de insumos (fertilizantes e agroquímicos) e máquinas. Com isso, elevou-se a produtividade dessa lavoura não apenas no Sudoeste Paulista, como também noutras regiões brasileiras que empreenderam processos similares nos anos 1980 em diante. Essa mudança estrutural não se limitou à mera inovação produtiva, mas criou um novo produtor de feijão moderno e plenamente inserido na dinâmica econômica em transformação. Assim, esse segmento tornou-se cada vez mais o responsável pela maior parcela do abastecimento nacional.
Da ótica do consumidor, ocorreu uma profunda redução dos preços, pois paulistanos, bem como os de outros centros urbanos brasileiros, foram beneficiados com a significativa redução dos preços, uma vez que os praticados no início da década de 1970 (R$ 4,87/kg) eram, em valores constantes, três vezes maiores que os de 2005 (R$ 1,58/kg). Além disso, a redução significativa das amplitudes sazonais de preços e a colheita de feijão em vários períodos do ano e em diversas regiões geraram uma complementaridade de oferta que permitiu ao consumidor a plena satisfação de suas preferências, obtendo feijão novo bom e barato durante todo o tempo. Trata-se de relevante contribuição para a segurança alimentar dos brasileiros.
José Sidnei Gonçalves – pesquisador do Instituto de Economia Agrícola, especialista em feijão



15 comentários:
No início da década de 1970, no pequeno comércio varejista de meu pai, em Santos, acompanhei a mudança de preferência dos consumidores de feijão. Vencida a desconfiança inicial, o feijão Carioca conquistava-os pela qualidade, assim como conquistou os produtores pela produtividade. Um grande sucesso da pesquisa pública paulista. Interessante a constatação de que os ganhos de produtividade foram transferidos para os consumidores, pela queda real dos preços do produto.
JRVicente
O aumento do preço do produto atinge as prateleiras dos supermercados de todo o país e foi causado por alterações climáticas. "A colheita foi prejudicada devido a um longo período de estiagem enfrentado no ano passado"
Como o consumidor e o agricultor pode se precavê, com esses problemas e a Secretaria de Agricultura o que pode ofertar hoje para nós consumidores e agricultores.
Parabéns, pela iniciativa.
Lucas Silva
Varejista
Agregando a história de outros feijão...
O cultivo do feijão na Grécia antiga e no Império Romano, onde o feijão era usado para votar, o feijão branco representava um sim e o feijão preto representava um não. Eram usados também como símbolo de vida, utilizado ate mesmo como pagamento de apostas.
Amei a história do feijão carioca
Viana Calixto,
estudante de agronomia
Dr. Sidinei, gostei muito da história do feijão carioca e tenho três perguntas, existe feijão transgênico? se sim a secretaria de agricultura comercializa este tipo de feijão? e economicamente é viável plantar feijão carioca para comercialização?
Abraços,
Ricardo Leme
Caro Ricardo
Existe uma variedade de feijão transgênico que foi criado pela EMBRAPA que buscou transferir aminoácidos de outra planta para melhorar a qualidade nutricional do feijão. Desconheço contudo a existência de cultivos comerciais. Talvez você consiga essa informação na EMBRAPA.
Cerca de 80% do feijão cultivado no Brasil é tipo carioca. Existem cultivos comerciais com elevada rentabilidade
Caro Ricardo
Existe uma variedade de feijão transgênico que foi criado pela EMBRAPA que buscou transferir aminoácidos de outra planta para melhorar a qualidade nutricional do feijão. Desconheço contudo a existência de cultivos comerciais. Talvez você consiga essa informação na EMBRAPA.
Cerca de 80% do feijão cultivado no Brasil é tipo carioca. Existem cultivos comerciais com elevada rentabilidade
José Sidnei
Prezada Viana
Cuidado com a informação, pois nem tudo que popularmente foi conhecido como feijão é o que nós atualmente consumimos como feijão, do gênero phaseolus. Até pouco tempo muita gente falava em feijão soja, que entretanto é de outro gênero. Normalmente fala-se que as leguminosas de vagem produzem feijão como fruto.
José Sidnei
Prezado Lucas
A realidade conjuntural do feijão neste momento é exatamente inversa, de feijão sendo vendido pelos produtores abaixo do custo de produção médio. Veja no site www.iea.sp.gov.br a análise do comportamento dos preços agropecuários.
Os mecanismos de intervenção no mercado são todos do Governo Federal. Mas informo que quando o produtor tem preço não tem feijão e quando tem feijão não tem preço, logo não interessa a ele a gangorra de preços.
José Sidnei
Prezado JR Vicente
Conquanto tenha revolucionado a produção dessa cultura alimentar básica do brasileiro, não ocorreu com a mesma consitência o reconhecimento tanto do Luiz D´Artagnan de Almeida que conduziu a pesquisa que originou o IAC Carioca, como de outros valorosos brasileiros anônimos como Eduardo Antonio Bulisani e Antonio Sidnei Pompeu que trabalharam com feijão no IAC por décadas e com intensa dedicação. Ressalte-se que para esse sucesso contribuiu de forma decisiva o Jairo Lopes de Castro, que aposentou-se como Diretor do APTA Regional Sudoeste Paulista (Pólo Regional da APTA com sede em Capão Bonito). O Jairo estruturou o dia de campo de feijão que levava cerca de mil produtores de todo Brasil para assistirem palestras de elevado conteúdo e visualizarem a campo o desempenho das inovações propostas para a lavoura. Isso foi essencial para a modernização da cultura.
José Sidnei
Prezados
Gostaria também de ressaltar que após o lançamento do IAC Carioca em 1969 as pesquisas prosseguiram com resultados fantásticos, sempre buscando variedade mais produtiva, produto de melhor qualidade nutricional, resistência a doenças e tolerência ás pragas. E atualmente deve-se fazer nota meritória ao trabalho do brilhante pesquisador de feijão do IAC/APTA, que lidera equipe de melhoramento dessa lavoura com resultados inequívocos. Falo do meu prezado amigo Sergio Augusto Moraes Carbonell, exemplo de dedicação ao desenvolvimento da ciência focado nas necessidades fundamentais da população
José Sidnei
Sidnei, adorei sua participação.
abs,
Vinicius
Sidnei,
O que é o feijão "jalo"?
Qual a diferença para o carioca?
João Sampaio
Sidnei,
Nova pergunta, o que é "feijão de corda" ?
E o feijão "guandú"?
João Sampaio
Prezado João Sampaio
O que é o feijão "jalo"?
O feijão "jalo" consiste numa variedade de feijão de grãos grandes, de cor clara, muito apreciada por alguns segmentos. Tem pouca expressão como proporção do consumo, mas pode ser encontrado em supermercados. O tempo de cozimento é maior (grão mais duro) daí ser necessário ser preparado por pessoa com experiência.
Qual a diferença para o carioca?
A diferença é na cor e no tamanho do grão, além de ter um sabor diferenciado.
Prezado João Sampaio
Nova pergunta, o que é "feijão de corda" ?
Feijão de corda que não é do genero phaseolus, é do genero vigna, consite num "feijão" muito plantado e consumido no Nordeste brasileiro. Tem um grão menor, um sabor diferenciado e é muito utilizado nos pratos tradicionais dessa região, como por exemplo feijão verde com manteiga de garrafa.
E o feijão "guandú"?
Trata-se de uma leguminosa que tem sido indicado como banco de proteina em pastagens, pela capacidade do arbusto de se manter verde no inverno. Exige contudo manejo cuidadoso das pastagens. Não tenho notícias de seu uso culinário.
Abraços
Sidnei
Postar um comentário
Dê sua sugestão, opine, questione e participe do nosso blog.